Faixa salarial e home office: como atrair os candidatos certos

Atrair o candidato certo depende menos de quanto a empresa paga e mais de como ela desenha a vaga, do modelo de trabalho à faixa salarial. Essa é a principal conclusão de um levantamento da Trampos, banco de talentos de marketing e comunicação.
Ao todo, o estudo analisou mais de 8 mil vagas publicadas nos últimos 24 meses, com mais de 1 milhão de candidaturas e quase 5,7 milhões de visualizações. Nesse universo, três alavancas tiveram efeito forte: modelo de trabalho, faixa salarial aberta e formulário simples. Contudo, os dados são de um recorte específico, marketing e comunicação. Ainda assim, as lições de funil servem para qualquer time de Talent Acquisition.
Alavanca 1: modelo de trabalho
- Vagas com home office recebem, em média, 185% mais candidaturas do que vagas presenciais equivalentes, na mesma área e senioridade
- Além disso, segundo o CEO da trampos, Tiago Yonamine, nenhum outro fator testado chega perto desse efeito — nem salário, nem tamanho da descrição
No entanto, o dado vai na contramão do movimento de volta ao escritório. A própria reportagem cita um levantamento da Robert Half, divulgado em julho: o trabalho 100% remoto responde por apenas 3% das vagas oferecidas pelos clientes da consultoria. Além disso, uma pesquisa da Data Tax com mais de 1.500 candidatos ativos indica que 58% dos brasileiros só aceitariam o presencial integral com aumento salarial de 50%.
Para o RH, portanto, a leitura é econômica: flexibilidade é uma vantagem de atração que não exige orçamento adicional. Assim, quando a empresa decide retirar essa flexibilidade, precisa saber que está mexendo na alavanca mais forte do funil. E precisa planejar como compensar.
Alavanca 2: faixa salarial aberta
Aqui, o efeito é menos sobre volume e mais sobre precisão:
- Por exemplo, com a faixa salarial oculta, 39,5% dos candidatos pedem salário acima do teto que a empresa está disposta a pagar
- Por outro lado, com a faixa aberta, esse número cai para 18,4%
- Assim, a proporção de candidatos dentro do orçamento sobe de 37,4% para 64,1%
- Além disso, o padrão se repete por senioridade: júnior (64,1% vs. 43,9%), pleno (64% vs. 35,7%) e sênior (64,4% vs. 35,3%)
- Em contrapartida, vagas com faixa aberta recebem, em média, 13% menos candidaturas brutas
Esse último ponto costuma assustar gestores: “vamos receber menos currículos”. No entanto, o estudo mostra a troca: menos volume, muito mais aderência. Afinal, cada candidatura fora do orçamento é uma triagem manual que alguém terá de fazer. Muitas vezes, é também uma negociação frustrada no fim do processo. Ou seja, esconder o salário não filtra candidato ruim; só adia o trabalho do recrutador.
Alavanca 3: simplicidade da candidatura
- Por exemplo, sem nenhuma pergunta de triagem no formulário, a conversão de quem vê a vaga e se candidata é de 22%
- Por outro lado, com cinco ou mais perguntas, cai para 11,7%
- Além disso, a queda é contínua ao longo da escala, não um degrau único
- Da mesma forma, vagas sem perguntas recebem, em média, 20% mais candidaturas brutas do que vagas com três ou mais
Na prática, cada campo a mais é um custo de esforço para o candidato. Em geral, o formulário é montado para facilitar a triagem da empresa. Porém, parte das pessoas desiste antes de terminar — e nem sempre são as menos qualificadas.
Como equilibrar faixa salarial, home office e formulário
Na verdade, as alavancas não funcionam isoladas. Assim, uma vaga com home office, faixa aberta e formulário enxuto tende a combinar volume com aderência. Mesmo assim, há tensões a gerenciar:
- Simplicidade vs. triagem: sem perguntas no formulário, a triagem precisa acontecer em outro lugar – por critérios claros na descrição e por ferramentas que ajudem a ordenar candidaturas
- Transparência vs. volume: a faixa aberta reduz candidaturas brutas; o indicador de sucesso precisa mudar de “quantos se candidataram” para “quantos estão aptos e dentro do orçamento”
- Flexibilidade vs. política interna: se o modelo presencial é inegociável, vale ser explícito na vaga e reforçar outros diferenciais, em vez de esconder a informação
Tradução para o seu funil
Na descrição da vaga
- Informar o modelo de trabalho logo no título ou no início do texto
- Publicar a faixa salarial
- Por fim, deixar claros os requisitos realmente eliminatórios
No formulário
- Reduzir perguntas de triagem ao mínimo indispensável
- Mover perguntas detalhadas para etapas posteriores, quando o candidato já está engajado
- Por fim, testar versões com e sem perguntas e comparar a conversão
Nos indicadores
- Taxa de conversão de visualização em candidatura
- Proporção de candidatos dentro do orçamento
- Tempo gasto em triagem manual por vaga
- Taxa de recusa de proposta por salário
Um alerta sobre generalização
Antes de tudo, o estudo foi feito com vagas de marketing e comunicação, áreas em que o trabalho remoto é frequentemente viável. Por isso, para funções operacionais ou presenciais por natureza, o efeito do home office não se aplica da mesma forma. Já as conclusões sobre transparência salarial e simplicidade de formulário são princípios de funil. Sendo assim, vale testá-los em qualquer área, com dados da própria empresa.
Erros comuns na atração: da faixa salarial ao formulário
- Anunciar “modelo a combinar” e deixar a dúvida sobre presencial ou remoto para a entrevista
- Esconder a faixa salarial para “não perder poder de negociação” e descobrir o desalinhamento só na proposta
- Copiar o mesmo formulário extenso para todas as vagas, independentemente do nível
- Medir o sucesso da vaga apenas pelo número de candidaturas
Vagas home office recebem quase 3x mais candidatos (mas esse não é o único segredo)
- Decidir a política de trabalho sem considerar o efeito sobre a atração
- Ignorar os dados do próprio funil e repetir práticas por hábito
Checklist de faixa salarial e atração para o RH
- Nossas vagas informam o modelo de trabalho de forma clara e logo no início?
- Publicamos a faixa salarial? Se não, sabemos quantas candidaturas chegam acima do teto?
- Quantas perguntas de triagem nossos formulários têm hoje?
- Medimos a conversão de visualização em candidatura por vaga?
- Nosso indicador de sucesso é volume ou aderência?
- Se estamos voltando ao presencial, calculamos o impacto na atração?
- Testamos variações de vaga (A/B) antes de mudar a política?
Como levar a conversa aos gestores
Em geral, gestores costumam pedir “mais currículos”. Nesse sentido, os dados da trampos ajudam a mudar a pergunta para “mais candidatos certos”. Primeiro, mostre que a faixa aberta quase dobra a proporção dentro do orçamento. Em seguida, mostre que cada pergunta extra corta conversão e que o modelo de trabalho pesa mais do que qualquer outro fator no setor estudado. Por fim, proponha um piloto em algumas vagas e compare os indicadores.
Leia também

Quanto tempo sua empresa leva para contratar?
A resposta pode parecer simples, mas o tempo de contratação é resultado de várias etapas. Quando uma delas demora mais do que deveria, o impacto se espalha por todo o processo. O HR Monitor 2026, da McKinsey, aponta que o tempo mediano entre a aprovação da posição e a aceitação da oferta foi de 70 […]

IA performática: por que o seu time finge domínio e o que o RH pode fazer
Esses dois avisos se resolvem juntos. Quebrei 9 frases longas em frases menores e comecei boa parte das novas frases com palavra de transição. Para isso precisei de pequenos ajustes, todos listados no fim. O conteúdo é o mesmo. A imagem, o título e os campos de SEO continuam iguais. Troque só o texto: [IMAGEM […]

Brasil é o 2º do mundo em intenção de contratar: o que isso exige do seu RH até dezembro
Para o quarto trimestre de 2026, 62% das empresas brasileiras pretendem contratar mais profissionais, segundo uma pesquisa global de expectativa de emprego noticiada pela Você RH. No ranking mundial de Expectativa Líquida de Emprego, que subtrai dos empregadores que querem contratar os que planejam reduzir a equipe, o Brasil aparece com 53%, atrás apenas da […]

Desemprego em 5,3%: o que os números de 2026 dizem sobre a sua próxima contratação
O mercado de trabalho brasileiro chegou a julho de 2026 com desemprego baixo e mais de 48 milhões de vínculos formais. Assim, para o RH, isso muda o cenário em que cada vaga disputa candidatos. Os dados abaixo vêm do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Emprego) e da PNAD Contínua (IBGE). 1. Mais de […]

NR-1: multa suspensa por mais 90 dias e o erro que pode custar caro ao RH
Em 24 de setembro de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou por mais 90 dias a suspensão de multas e sanções por descumprimento da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). Foi a segunda suspensão, depois da primeira, de junho. Além disso, o objetivo declarado é dar tempo para que governo e […]