1 em cada 4 gestores admitiu que o RTO era para forçar demissão voluntária. Os outros 3 não admitiram.

A lista de presença obrigatória chegou. E com ela, aquela conversa que todo Head de RH conhece bem: como explicar para o time que a empresa quer todo mundo de volta no escritório sem conseguir explicar, exatamente, por quê.
Em 2026, a Bamboo HR fez a pergunta que ninguém fazia em voz alta para executivos americanos: qual foi a motivação real por trás do seu RTO? Um em cada quatro admitiu. O retorno ao escritório foi projetado para gerar demissões voluntárias. Reduzir headcount sem pagar rescisão, sem abrir processo de layoff, sem manchete ruim.
Os outros três não admitiram. Mas a conta não fecha de outra forma. (Spoiler: o time já fez essa conta também.)
No Brasil, a tensão tem nome e número. Uma pesquisa de 2026 mostrou que 65% dos profissionais brasileiros trocariam de emprego para manter o trabalho remoto (Olhar Digital, mar/2026). Não é capricho. É uma declaração sobre o que aprenderam nos últimos três anos: que conseguem entregar, às vezes mais do que no escritório, sem depender de um endereço fixo.
Há lideranças que acreditam genuinamente que presença física melhora cultura e alinhamento. Algumas têm razão. Outras têm nostalgia. E algumas, como a Bamboo HR revelou, têm uma estratégia de saída que preferem não verbalizar. O problema, para quem está do lado de fora dessa decisão, é que é quase impossível saber com qual empresa está lidando. Na dúvida, o profissional resolve por conta própria.
O custo que não aparece no relatório de RH
Deixa eu contar o dado que raramente aparece nas análises de RTO: o maior risco não é de quem pede demissão. É de quem fica e não confia mais.
Retornos obrigatórios sem justificativa clara geram um padrão específico de resposta organizacional. O estresse sobe, especialmente entre profissionais com filhos pequenos, longos trajetos ou condições de saúde que tornaram o remoto necessário, não preferencial.
A confiança na liderança cai, e confiança, diferente de presença física, não se reconstrói mandando e-mail de “estamos animados para te ver de volta.”
O que aparece nos dados de People Analytics, 6 a 12 meses depois, é um time mais quieto: menos iniciativa, mais execução passiva, menos proposta espontânea de melhoria.
O corpo voltou para o escritório. A cabeça ficou em casa.
A empresa conseguiu o que pediu. Não conseguiu o que precisava.
Onde fica o RH nessa história
Existe uma posição particularmente desconfortável aqui, e a gente sabe qual é. É o Head de RH implementando uma política em que muitas vezes não acredita, para um time que desconfia da justificativa, em nome de uma liderança que nem sempre compartilhou a motivação real. É a gente virando tradutor de uma decisão que não fomos consultados para tomar.
E o time percebe. Sempre percebe.
A questão prática não é “como fazer o time aceitar o RTO.” É o que fazer quando a empresa usa o espaço físico como instrumento de gestão de saída, e o RH está no meio disso sem ter pedido pra estar.
A partir de maio de 2026, a Portaria MTE nº 1.419/2024 obriga que todas as empresas brasileiras incluam riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Sobrecarga de deslocamento, perda de autonomia sobre o ambiente de trabalho e pressão organizacional sem justificativa de saúde são fatores documentáveis. Retorno forçado sem embasamento em bem-estar não é só uma decisão ruim de cultura. Pode virar passivo trabalhista.
Isso muda a conversa com a diretoria, não porque compliance seja mais convincente do que “as pessoas estão sofrendo” (embora seja uma tristeza que às vezes seja), mas porque agora tem regulação do lado do argumento.
E o Head de RH que não usa isso ainda está lutando com as mãos amarradas.
Antes da próxima reunião sobre presença obrigatória, vale colocar uma pergunta simples na mesa: o que a empresa espera que melhore com o retorno, e como vai medir se melhorou?
Se a resposta for vaga, o problema não é a comunicação do RTO. É o RTO.
Fontes:
BambooHR, “Forced Return to the Office” survey, 2024.
Olhar Digital, “Home office no Brasil: 65% trocariam de emprego”, março 2026.
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