Guia Salarial 2027: quanto ganha quem lidera RH
O RH ganhou cadeira na mesa de decisão, mas nem sempre ganhou gente ou orçamento para ocupá-la. Essa é a síntese do recorte de Recursos Humanos do Guia Salarial 2027 da Michael Page. O levantamento ouviu 5.762 profissionais e 1.955 empresas, mapeando mais de 400 cargos em 15 setores. Além disso, o estudo traz um dado que deveria incomodar qualquer diretoria: a liderança é decisiva para quem fica ou sai, mas quase nenhuma empresa a trata como estratégia de retenção.
O RH com mais escopo e a mesma estrutura
Segundo o guia, à medida que as estruturas ficam mais enxutas, cresce a busca por profissionais de RH que atuem perto do negócio, conectando gestão de pessoas, estratégia e resultado. Assim, ganham relevância temas como operações e folha, people analytics, desenvolvimento organizacional e gestão da mudança. Especialmente em multinacionais, cresce também a demanda por posições executivas.
“O RH ganhou mais espaço nas decisões do negócio, mas isso nem sempre veio acompanhado de mais gente ou mais recurso”, afirma Andréia Ferreira, gerente sênior da divisão de RH da Michael Page Brasil. Ou seja, a área passou a responder por cultura, liderança e transformação organizacional, muitas vezes com a mesma estrutura. Isso muda o perfil de quem lidera RH e aumenta a pressão sobre esses profissionais.
O dado central do Guia Salarial 2027: a liderança decide, mas não é tratada como estratégia
Quando avaliam uma nova oportunidade, os profissionais olham principalmente para quem será a liderança e para as possibilidades de desenvolvimento:
- 90% dizem que a relação com o chefe é relevante na decisão de carreira (62% dizem que pesa muito; 28%, de forma moderada).
- Além disso, 69% considerariam sair por falta de perspectiva de evolução profissional.
- Por fim, 60% pediriam demissão por causa de um gestor desmotivador.
Do lado das empresas, no entanto, o retrato é outro. A liderança inspiradora aparece como principal estratégia de retenção em apenas 4% das organizações, atrás de:
- cultura organizacional (30%);
- benefícios básicos (21%);
- reputação da empresa (16%).
“Benefícios, cultura e carreira importam, mas boa parte dessa experiência chega ao profissional por meio do gestor”, diz Andréia. Em outras palavras: a cultura que a empresa declara é vivida pelo colaborador na conversa com o líder direto.
Quanto ganha quem lidera RH, segundo o Guia Salarial 2027
O Mundo RH detalhou as faixas mensais do guia por porte de empresa (valores com base nos processos de recrutamento da consultoria nos 12 meses anteriores; não há recorte regional):
- Diretor de RH em grandes empresas: de R$ 35 mil a R$ 80 mil, com média de R$ 57,5 mil, a maior média do guia para a área.
- Diretor de RH em médias empresas: de R$ 30 mil a R$ 55 mil, média de R$ 42,5 mil.
- Gerente de remuneração e benefícios: média de R$ 25,5 mil (médias) e R$ 35 mil (grandes).
- Gerente de RH/business partner: média de R$ 21,5 mil (médias) e R$ 31,5 mil (grandes).
A coluna de variação em relação à edição anterior também conta uma história. Por exemplo, a maior alta aparece na liderança de recrutamento e seleção/talent acquisition: 26% em empresas médias e 20% em grandes, seguida de gerentes sêniores de RH/BP (21%) e gerentes de RH/BP (19%) em empresas médias. Por outro lado, várias posições, como desenvolvimento organizacional e operações de RH/folha em grandes empresas, tiveram variação zero. Afinal, os próprios autores lembram que se trata de referência de mercado, sem valor de tabela fixa ou reajuste garantido.
O que ler nas entrelinhas do Guia Salarial 2027
Talent acquisition voltou a ser estratégico
A valorização da liderança de recrutamento conversa com o momento: volume de candidaturas em alta, IA mudando a triagem e, agora, o fim da escala 6×1 exigindo reforço de equipes em várias operações. Por isso, quem sabe contratar bem e rápido virou ativo.
A IA desloca o valor do RH para o humano
O guia aponta que, conforme a IA assume parte do trabalho operacional, como organizar informações, analisar indicadores e automatizar processos, ganham peso leitura de cenário, comunicação, influência, escuta ativa e resiliência. Para Andréia, conhecer as políticas internas é só o começo: é preciso entender o negócio, acompanhar o mercado e “importar repertório”.
A retenção está no lugar errado do orçamento
Se 60% sairiam por um gestor desmotivador e só 4% das empresas apostam na liderança para reter, há um descompasso entre onde o risco está e onde o investimento vai.
O próprio RH também vive o dilema
Há uma ironia nos dados: o RH que precisa convencer a empresa a investir em liderança é, ele mesmo, uma área que ganhou responsabilidades sem ganhar estrutura. Consequentemente, isso afeta a forma como os líderes de RH olham para a própria carreira. Os mesmos critérios valem para eles: quem será o chefe (em geral, o CEO ou o CFO), qual o espaço real nas decisões e quais as chances de crescer. Portanto, empresas que querem atrair bons executivos de RH em 2027 vão precisar responder a essas perguntas com clareza, além de apresentar a faixa salarial.
Como usar o Guia Salarial 2027 em conversas de remuneração
- Compare o escopo antes do título. Por exemplo, um “gerente de RH” em empresa média pode acumular folha, recrutamento e T&D; em uma grande, pode cuidar de um único pilar.
- Observe a variação, além da média. Afinal, funções com variação alta (como liderança de TA) indicam disputa de mercado e risco de perda.
- Considere o pacote completo. Além disso, variável, benefícios e flexibilidade entram na comparação, ainda que o recorte publicado se concentre no salário mensal.
- Documente a decisão. Assim, faixas internas bem justificadas ajudam na transparência salarial e reduzem ruído nas equipes.
Cinco movimentos para 2027
- Coloque a qualidade da gestão no painel de retenção. Ou seja, cruze turnover voluntário, eNPS e resultados de clima por gestor, e também por área.
- Prepare líderes para conversas de carreira. Afinal, a falta de perspectiva é o principal motivo de saída (69%); o gestor é quem precisa abrir esse caminho.
- Use as faixas como ponto de partida. Por isso, compare escopo real, porte e tempo de casa antes de recalibrar a remuneração da sua equipe de RH.
- Invista em quem contrata. Se a liderança de TA está sendo disputada, revise a proposta de valor para esse perfil e as ferramentas que ele usa.
- Desenvolva o próprio RH. Por fim, business acumen, dados e gestão da mudança deixaram de ser diferenciais.
Para líderes de RH
O Guia Salarial 2027 confirma algo que muitos já sentem: o RH ficou maior por dentro sem crescer por fora, e a retenção depende mais do líder direto do que de qualquer benefício. Assim, se você está revisando a estrutura do seu time ou a estratégia de atração para 2027, vale a conversa com o time da Burh sobre como dados de recrutamento e de pessoas podem apoiar essas decisões.
Leia também
Currículos polidos por IA: a nova maior dor do recrutador
Durante quase duas décadas, a maior dor de quem recruta foi a mesma: faltam candidatos qualificados. No entanto, em 2026, isso mudou. Segundo um novo relatório da Employ, empresa de tecnologia de contratação, divulgado pela HR Dive, 33% dos recrutadores apontam currículos “polidos” por IA como principal fonte de estresse. É a primeira vez, em […]

Fim da escala 6×1: o que o RH precisa ajustar nos próximos 60 dias
O fim da escala 6×1 saiu do papel. Em 16 de outubro, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141, dois dias depois de o Senado aprovar a PEC 221/2019 em dois turnos, por 75 votos a 1. Assim, o que na semana passada ainda era tramitação agora é calendário: o RH tem 60 dias até […]

Dois empregos em um: 61% dos profissionais já acumulam o trabalho de mais de um cargo
Empresas cortam vagas para ganhar eficiência, mas o trabalho continua lá, e sobra para quem ficou. O relatório Workforce 2026 da Korn Ferry ouviu mais de 16 mil profissionais em 11 mercados e foi reportado pela Fortune. Assim, o estudo dá nome ao fenômeno: o “two-job job”, ou “dois empregos em um”. Ou seja, são […]

Metade do RH passa metade da semana em tarefas repetitivas, e o motivo não é falta de tecnologia
O RH comprou IA, automação e novos sistemas — e continua digitando o mesmo dado em três lugares. Uma pesquisa da Eagle Hill Consulting, conduzida pela Ipsos com 200 profissionais de RH nos Estados Unidos, foi reportada pelo HR Dive. Ela mostra um paradoxo que soa familiar a muitos times brasileiros: a percepção sobre a […]

Seu próximo candidato pode ser uma IA: como proteger seu processo seletivo
O candidato perfeito pode não existir. A reportagem de capa da edição 106 da Você RH mostra que candidatos criados por IA já participam de processos seletivos. Eles usam rosto e voz sintéticos em entrevistas por vídeo, documentos de terceiros e respostas geradas em tempo real. Inclusive, em alguns casos, chegam a ser contratados. Além […]